segunda-feira, 8 de abril de 2013

Homossexualidade: um dentre os hipergênero das HQs


Publicado originalmente no posfácio da edição da publicação Amores Plurais : Quadrinhos e homossexualidade.


Tive a oportunidade impar de ler as dezoito (18) histórias em quadrinhos e tiras do concurso da Editora Marca de Fantasia cujo tema é Quadrinhos e Homossexualidade. Dentre HQs inscritas, havia produções nacionais e internacionais apresentadas para seleção. Diversas abordagens da pluralidade sexual que representam situações do cotidiano que para os homossexuais ainda há barreiras sociais, religiosas, culturais, psicologias. Abordagens poéticas e filosóficas na narrativa numas HQs, noutras uma abordagem simplória da estética e da narrativa com grande potencial. Dentre todas, algumas que chamaram minha atenção por algumas peculiaridades em meio às outras.
A história em quadrinhos Joca e Juarez produzida por Henrique Sampaio e Francisco Luis, de Juazeiro do Norte – CE abordou o tema da homossexualidade masculina com linguagem de fácil entendimento e branda para temas fortes como questões sociais e religiosas que geram conflitos psicológicos. Sua narrativa é no estilo conto ilustrado, com linguagem rimada que faz alusão aos cordéis tipicamente nordestinos. Os desenhos num estilo que remete ao cartum com clareza na comunicação do contexto das cenas.  
A HQ intitulada Minha Flor, Minha Rosa produzida por Amaro Braga e Janaina Araújo das cidades de Recife-PE e Maceió-AL, aborda tema da homossexualidade feminina no estilo de desenho mangá. Diga-se de passagem, com bastante domínio de técnica e linguagens típicas de estilo. Seu tema é questões sociais e legais que são barreiras para os homossexuais e reflexos psicológicos destes no comportamento dos indivíduos que compõem a história.
As tiras seriadas de Camila desenvolvida por Julie Albuquerque de Ibiúna-SP que retrata uma personagem transexual (que intitula a série) abordam os mais diversos contextos vividos nas particularidades do universo transexual. A linguagem verbal da personagem possui palavras e gírias particularmente utilizadas por homossexuais. Seu estilo de desenho assemelha-se ao estilo mangá, o que dá liberdade nas exagerações das expressões facial, comunicando com proporção adequada para determinados contextos.
 A história em quadrinhos intitulada Eu e Ele produzida por Pedro Machado possui um excelente domínio da narrativa gráfica apenas visual que aborda a solidão, que um homossexual masculino vive por pressão social. Outra história em quadrinho que aborda o mesmo tema da solidão vivida pelo homossexual visto pela ótica feminina, é a HQ de Ana Ribeiro de Portugal, cuja narrativa depressiva trás a tona todo o sufocar dos sentimentos num breve monólogo.
As tiras de Ber the Bear de Rafael Lopes do Rio de Janeiro – RJ tem uma proposta educacional e informativa sobre um grupo particular de homossexuais masculinos que se autodenominam ursos por características estéticas. Sua linguagem é simples no visual por opção. Não há desenvolvimento de cenário porque o importante é o texto dos diálogos de dois personagens e em sinergias com estes diálogos estão diversas e divertidas expressões faciais num estilo cartum de representação muito bem desenvolvida.  
Aqui da Paraíba, duas HQs chamaram minha atenção. A de Samuel Góis que tem um jogo narrativo entre imagem e textos inusitado com uma pitada poético-filosófica, bastante atrativa que proporciona várias maneiras de leitura que usa dos temas da Natureza para abordar as questões da sexualidade. E a de Shiko intitulada Sobre o Meu e os Outros (sou suspeita para falar de Shiko). Mas o porquê que esta HQ chamou minha atenção de forma acentuada com relação às outras, foi o fato de ser uma história cujo tema é homossexualidade que não possui temática político, religiosa, psicológica, social, educativo, poético ou filosófico. É apenas um conto. Sensacional.  Completamente diferente dos outros inscritos no concurso e como um dia se espera que histórias em quadrinhos, cujo tema é homossexualidade, no Brasil seja mais uma opção de história em quadrinhos; e não uma categoria a parte, ou algo novo, polêmico.
Esta é a proposta da Editora Marca de Fantasia com o Concurso Quadrinhos e Homossexualidade. Que a diversidade sexual seja uma temática das histórias em quadrinhos como qualquer outra: seja algo do cotidiano e respeitado.
 
Paloma Diniz

Pesquisadora e membro do Grupo de Pesquisa Imaginário!

Artista da agência Space Goat Productions, LLC.

Professora do Studio Made in PB


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